O verdadeiro significado do sexo, por Dietrich von Hildebrand – Parte I

“O deplorável no tratamento do sexo, nos dias de hoje, não é particularmente a imoralidade – que existia também nos tempos antigos – mas a cegueira comum quanto à verdadeira natureza e significado desta esfera. (…)

Se se considera o sexo um simples instinto – pondo-o no mesmo plano da fome e da sede – permanece-se necessariamente cego à sua verdadeira natureza. Pode-se estudar o relatório de Kinsey, podem-se ler tratados sobre a fisiologia do sexo, mas nada disso ajudará de modo algum a compreender-lhe a natureza e o significado verdadeiros.

Só se partirmos da grande e abençoada experiência do amor, o amor entre o homem e a mulher, é que se revelarão a natureza e o significado do sexo, e o seu mistério. (…)

Se quisermos compreender a verdadeira natureza do sexo, precisamos libertar-nos de uma prevenção geral, a saber, a de acreditar que a única realidade válida e autêntica nos é apresentada pelas ciências naturais. O mais é considerado ‘romance”. Muitos creem que as vibrações são mais sérias e reais que as cores ou as melodias, ou que o aspecto da mão humana sob o microscópio é o autêntico e que o seu aspecto como o vemos normalmente é mera aparência. Muitos creem que é somente no laboratório que se alcança a realidade válida, autêntica.

Esse erro é desastroso e nos afasta da mais importante face da realidade. Não se trata apenas de uma estúpida e triste noção do mundo, mas também de uma noção absolutamente errônea, deformada, irreal, como o é toda e qualquer ideia unilateral. Li um artigo na revista Reader’s Digest’, intitulado ‘Quem matou o Romance?’, em que se faz um paralelo entre as relações de amor de épocas passadas e as dos nossos dias. Embora o autor esteja certo na sua avaliação, erra em ver a diferença entre as duas no fato de uma ter sido, e a outra não, embelezada de romance. Se se considera a verdadeira natureza do amor entre o homem e a mulher – esta imensa realidade que a literatura de todos os países e de todas as épocas tem cantado, e que encontrou a sua expressão mais gloriosa no Cântico dos Cânticos – como somente uma deleitosa ilusão, fica-se reduzido a compreender mal a verdadeira natureza deste amor. Denominando-o ‘romance’, já se aceitou a deturpada concepção da realidade – a visão de laboratório. Deveríamos, antes, compreender que este amor, com toda a sua felicidade, não é mero romance, mas uma realidade completa, verdadeira, e que a imagem que o amante tem da pessoa amada é muito mais profunda, verdadeira e existencial do que a insípida imagem que qualquer não-amante tem de outra pessoa. Da poesia certa vez disse Goethe: é como os vitrais coloridos de uma igreja. Vistos do exterior, parecem negros, monótonos, sem forma. Mas, ao entrar-se na igreja, manifesta-se todo o seu esplendor. Obviamente, o aspecto interior é o autêntico e válido. Isto se aplica a todas as coisas grandes e importantes, que são dotadas de valores reais. Enquanto as observarmos ‘do lado de fora’, enquanto as tratarmos com a atitude de laboratório, elas não poderão compreender-se na sua natureza e significação verdadeiras. (…)

O amor entre o homem e a mulher não é uma invenção romântica dos poetas, mas um fator extraordinário na vida humana desde o início da história da humanidade, a fonte da felicidade mais intensa na vida humana terrestre. Dele diz o Cântico dos Cânticos: ‘Se por amor um homem desse todos os bens da sua casa, haveria de desprezá-los como a bagatelas.’ Com efeito, só este amor é a chave para uma compreensão da verdadeira natureza do sexo, do seu valor e do mistério que personifica.”

Dietrich von Hildebrand foi um filósofo alemão do séc. XX com publicações em Ética, Estética e Metafísica. Também escreveu abundantemente e apresentou reflexões profundas sobre a natureza do amor, o Matrimônio, a  pureza e a castidade. Este trecho apresentado é parte do livro ‘O amor entre o homem e a mulher’, com tradução de Carlos A. Nougué. 

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