Mães rebeldes: manifesto para um novo feminismo

Por Diego Contreras

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Essa é a proposta que a norueguesa Janne Haaland Matlary faz no seu livro Il Tempo della Fioritura. Sul un nuovo femminismo (Mondadori, Milão, 1999).

Para lançar um raciocínio aparentemente tão simples, é preciso ter um currículo acima de qualquer suspeita. Do contrário, não faltarão pessoas para dizer que, no fundo, o que se quer é voltar a prender a mulher na cozinha. Janne Haaland Matlary tem as credenciais em ordem: além de ser escandinava (os escandinavos são conhecidos pela sua “modernidade”), é catedrática de Relações Internacionais da Universidade de Oslo, fez parte do governo do seu país como secretária de Assuntos Exteriores (1997-2000) e tem quatro filhos. Por isso as idéias expostas em seu livro – ainda sem tradução para o português – têm, por um lado, a marca de quem experimenta no cotidiano a dificuldade de compatibilizar um trabalho exigente com a atenção à família e, por outro, a força de quem está decidida a mudar as coisas.

“Lutei mais de dez anos para conciliar a maternidade e o trabalho profissional, sentindo crescer uma tristeza dentro de mim ao ver que a gravidez e a amamentação eram consideradas «interrupções» em minha carreira, e ao comprovar que sociedades ocidentais modernas ignoram quase que completamente o enorme trabalho que a maternidade traz e a sua importância para a coletividade”. Os vestígios desta “luta” permeiam todo o livro, ora nas entrelinhas, ora mais explicitamente, como quando a autora lembra um breve encontro com um colega: “«Tenho cinco filhos, mas minha mulher não trabalha», disse-me. «Sério que não trabalha?», respondi. «Então, o que é que ela faz o dia todo em casa com as crianças?» Sorriu e desculpou-se. Espero que tenha aprendido a lição”.

UMA XEROX RUIM

O conteúdo do livro baseia-se, como a autora diz, nas conversas tidas com outras mulheres durante as sessões de sauna típicas dos países nórdicos. A reflexão parte de um dado antropológico essencial, embora freqüentemente desprezado pela cultura dominante: a feminilidade expressa-se na maternidade (entendida no seu sentido amplo, não apenas biológico). “Sempre fui uma mulher trabalhadora, interessada sobretudo no meu próprio trabalho. Mas quando me tornei mãe, percebi que essa era, em um sentido muito profundo, a verdadeira essência da feminilidade”.

Essa idéia vem de mãos dadas com outra conclusão fundamental: o homem e a mulher são diferentes. Segundo Matlary, uma das principais falhas do feminismo histórico foi criar um modelo feminino que era uma “xerox” do homem. Esqueceram-se da mulher real. Por isso, é preciso recuperar a identidade da mulher, e amadurecer a convicção de que ela será forte apenas quando desenvolver as suas qualidades particulares. “Eu, mulher, deveria sentir-me livre para ser eu mesma, seja qual for o trabalho que exerça. Eu, mulher, nunca deveria ver-me obrigada a escolher entre a maternidade e a carreira; e mais, deveria ser mais valorizada no trabalho e na política justamente como mãe. Não tenho por que me parecer com os homens para conseguir um trabalho, nem deveria ser obrigada a esconder que sou mãe. Enfraquece-me imitar os homens, porque então não sou eu mesma. Por outro lado, as qualidades femininas tornam-me forte”.

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AÇÃO POLÍTICA

O postulado do “novo feminismo” que Matlary apresenta poderia ser resumido assim: é preciso organizar as coisas para que as mulheres – e os homens – possam cuidar da família e da carreira sem prejudicar a sua saúde física e mental. É difícil que o “mercado” adote espontaneamente essas medidas. Por isso, elas devem ser promovidas através do empenho político, que não deve ser tarefa exclusiva das mulheres políticas, mas também dos homens.

Com esta ação, deve-se buscar horários de trabalho flexíveis, o fim da discriminação das mães nas empresas e o desenvolvimento de alguns conceitos, como um “salário família” sob responsabilidade do Estado (pois uma família equilibrada produz um grande benefício social) e que poderia ser recebido tanto pelas mães como pelos pais que escolhessem dedicar-se ao lar… Concretamente, diz Matlary, é preciso conseguir, entre outras coisas, incentivos fiscais, licenças-maternidade – remuneradas e com garantia de manutenção do emprego – de pelo menos nove meses, bem como uma licença-paternidade para os pais.

Certamente existe uma disparidade muito grande entre homens e mulheres que competem por um mesmo emprego na idade em que é possível ter filhos, também o melhor período para a afirmação profissional. As legislações trabalhistas também deveriam contemplar adequadamente esse problema.

MULHERES NO PODER

Apesar de na Noruega metade do governo e 40 do Parlamento estarem nas mãos das mulheres, os números globais são muito mais modestos: atualmente, as mulheres representam apenas 13 dos cargos políticos. E a sua presença é ainda menor em cargos com repercussão internacional.

Entretanto, sua presença nos “centros de poder” poderia levar-lhes mais humanidade, tão necessária hoje em um mundo caracterizado pelas lutas internas. “A alta política – a comédia de guerra e paz entre os Estados – foi substituída por conflitos internos caóticos, em que já não se respeita nenhuma norma internacional”. Noventa porcento dos conflitos da década passada foram guerras civis, cujas principais vítimas não são soldados, mas crianças, mulheres e idosos, e cujos refugiados contam-se aos milhões.

Parece claro que a presença das mulheres nos centros de decisão internacional é hoje mais necessária que nunca. Além disso, a vida familiar é um antídoto eficaz contra alguns vícios característicos da classe política. “O melhor remédio contra a presunção é ir para casa e lavar o chão da cozinha, com as crianças na sala gritando porque querem comida, atenção ou que brinquemos com elas. As tarefas cotidianas da maternidade – e da paternidade – nos fazem humildes e nos lembram de que somos insignificantes. Também por essa razão, muito banal, acho que as mulheres são potencialmente melhores políticos que os homens: nos acostumamos a colocar paz e a resolver conflitos em nossa experiência diária com os filhos (para não falar com os maridos!) e somos incapazes de fixar a atenção em nós mesmas durante muito tempo”. A autora sublinha depois que não se trata de idealizar a mulher, pois ambos os sexos têm capacidades paralelas para os assuntos públicos.

Na política, como no mundo do trabalho, tudo (ritmos de trabalho, horários, etc.) parece ter sido pensado para um tipo de homem que deixa a família em segundo plano. Um pouco de senso comum feminino faz falta. Por essa razão, é possível estar de acordo com observações como as seguintes: “Não sei por que os parlamentares trabalham a noite toda e tiram longas férias; estou certa de que os homens poderiam eliminar grande parte de suas viagens se se preocupassem, como as mulheres, com os problemas que sua ausência provoca”.

SEIS MIL DÓLARES

Poder-se-ia pensar que muitas das propostas do livro são utópicas, e que será muito difícil pô-las em prática em um mundo tão competitivo e “globalizado” como o nosso; no fundo, o que as empresas querem e buscam são pessoas que se “casem” com elas… talvez, não será fácil nem mesmo fazer com que alguns entendam que as regras precisam mudar, fazer com que vejam a importância de conseguir que milhões de pessoas possam dar mais atenção às suas famílias, sem que isso represente menosprezo por seu trabalho.

Um exemplo de que não se trata apenas de meras sugestões utópicas, mas de idéias que encontram uma boa aceitação entre as pessoas, é uma recente medida aprovada pelo Parlamento norueguês, que a autora conta com legítimo orgulho. Para permitir aos pais uma verdadeira escolha entre deixar o filho na creche ou cuidar dele em casa, determinou-se que o Estado oferecesse às famílias uma ajuda anual de seis mil dólares por filho (até o terceiro ano de idade), caso um dos pais escolhesse ficar em casa durante esse período. A medida seguiu em frente, embora não tenha faltado quem a visse como algo “retrógrado”.

Não é fácil mudar uma mentalidade e seus “dogmas”, mas um primeiro passo importante é levantar problemas e apontar soluções, esperando que, com o tempo, elas ajudem a configurar uma “ordem do dia”, uma agenda política, enfim, prioridades que atendam verdadeiramente às necessidades das pessoas e não às vontades ideológicas de uma minoria.

Fonte: Interprensa

Tradução: 

Extraído da Quadrante

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Um comentário sobre “Mães rebeldes: manifesto para um novo feminismo

  1. cara,quanto pedantismo e distorções…..mas não me surpreendo…com o movimento feminista falido e distorcido com tanta vulgaridade,cria-se espaço para estas pregações tradicionalistas ao nosso respeito.Mas uma coisa acho curisosa: sempre acusam o feminismo de colocar todas as mulheres do mundo no memso nível,mas o que estes tradicionalistas fazem,ao insistirem nestas afirmações absurdas que sabem o que faz to100% de nós feliuzes? E o que é “qualidade feminina”? É ser serviçal,pretativa,se anular pelas os outros com um sorriso na cara? Porq ue isso não é consideara masculino também?

    Backslash puro,com uma máscara feliz para que as mulheres caiam

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