“ESSA, SIM, É CARNE DA MINHA CARNE!”

Acredito que todo homem, quando encontra a mulher definitiva, seu desejo traduzido em contornos, materializado numa pessoa, repete interiormente com Adão estas palavras antigas e sempre novas: “Essa, sim, é carne da minha carne, ossos dos meus ossos!”

Obviamente, o leitor mais atento saberá que essa exclamação aplica-se também à mulher, quando os seus sonhos ganham forma, assumindo concretude e abandonando o reino da abstração.

Ainda que não acreditemos tratar-se de um livro divinamente inspirado — não é o meu caso. Como católico, não me é dado ter dúvidas! –, parece-me incontestável que o primeiro livro da Bíblia está impregnado de um profundo conhecimento do homem.

Mas que querem dizer, afinal, aquelas palavras do Gênesis?

O próprio Gênesis ajuda-nos: “Não é bom que o homem esteja só.” “O homem (e a mulher) precisa de um auxílio que lhe seja semelhante”.

“Carne da minha carne, ossos dos meus ossos” significa alguém que se pareça comigo e que me realize. Não um idêntico, não um igual, mas alguém que possui os mesmos ideais, os mesmos valores, o mesmo desejo de caminhar na direção de Deus, de crescer para Deus. O homem, acabrunhado pela solidão mesmo ali no paraíso de delícias, havia procurado companhia entre todos os animais e nenhum encontrou que lhe agradasse, que lhe fosse semelhante. A Bíblia de Jerusalém traduz: “não encontrou ajuda que lhe correspondesse”.

Se é preciso estar de acordo sobre o que pedir para rezar comunitariamente, quanto mais é preciso estar de acordo sobre a casa que se quer construir ao casar, sobre o ideal a perseguir, sobre como educar os filhos.

“Carne da minha carne, ossos dos meus ossos”: essa aí me é tão semelhante que é capaz de formar uma só coisa comigo, como que um único ser, um único corpo e uma única alma. Ela é capaz de ouvir com os meus ouvidos, enxergar com os meus olhos e entender com a minha mente. É capaz de completar meus pensamentos inconclusos, de me levar mais longe do que eu iria sozinho. Aqueles outros animais do paraíso também podem significar aquelas pessoas tão diferentes de nós, que são incapazes de satisfazer-nos, de entender-nos, de enxergar a realidade como nós, de ajudar-nos a completar um pensamento.

Um bispo santo dizia: “A união dos corpos é fácil, pois um homem pode unir-se fisicamente a uma prostituta. A união dos corações é mais difícil e mais elevada. A união das almas, porém, é ainda mais rara e mais alta. É a que os casais devem buscar.”

“Carne da minha carne, ossos dos meus ossos”… Parece haver aí um certo deslumbramento, um ato de contemplação. Há aí uma espécie de supresa, de êxtase sereno, de conclusão sublime. O homem não tem mais dúvidas. É possível que as tivesse todas antes, ao examinar suas outras potenciais companhias. Agora, não. Não há mais dúvidas. Há certeza, admiração, sossego do espírito e quietude da alma.

Sozinho, o homem era incapaz de realizar-se e tornar-se fecundo. Dotado de alma racional, que é o que realmente o distingue dos outros animais, o homem precisa contemplar-se em outra alma como num espelho. Precisar ler e ser lido. Compreender e ser compreendido.

Por Paul Medeiros Krause

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