O casamento está em crise?

O casamento parece ter fracassado para o homem e a mulher modernos. Diante dele, sentem-se inseguros e até desiludidos, como se evidencia no rápido crescimento do número de divórcios em todo o mundo ocidental. (…) o divórcio passou a ser uma característica das assim chamadas sociedades progressivas. No entanto, só se pode considerar o divórcio como um “progresso” na medida em que as pessoas sintam que o seu casamento tem probabilidades de fracassar; é como quando se fazem compras: só se quer saber se há garantias de devolução do dinheiro quando se receia não ficar satisfeito com a mercadoria comprada. Não há como fugir a esta comparação: um mundo que começa a acreditar no divórcio começa a desacreditar do casamento.

É NATURAL QUE O CASAMENTO FRACASSE?

O casamento é, obviamente, uma das tendências mais naturais da natureza humana. Ora, se é assim, parece difícil imaginar que, em circunstancias normais, seja natural que o casamento fracasse. Se tantos casamentos fracassam hoje em dia, talvez seja porque as circunstancias que cercam o matrimônio já não são normais. Ao invés de o casamento estar fracassando para o homem, não será o homem que vem fracassando em relação ao casamento? Não será que o erro, ao invés de residir no casamento, reside no homem moderno, e mais especialmente no modo como ele encara o casamento? Inclino-me a pensar que sim, porque me parece que há pelo menos três pontos principais em que o homem encara mal o casamento [examinemos cada um destes pontos mais de perto]:

  • 1) O homem moderno tende a “deificar” o amor humano, esperando dele o que – como qualquer cristão sabe – só Deus pode dar;

A principal esperança do homem é ser feliz. O ser humano foi feito para a felicidade e procura-a necessariamente. Mas somente encontrará frustração se procurar a felicidade onde ela não estiver…; ou se procurar uma felicidade ilimitada onde não houver senão felicidade limitada…; ou se procurar a felicidade onde ela se encontra, mas não do modo como se pode encontrá-la…

A felicidade pode ser encontrada no casamento, mas não de um modo ilimitado; pedir ao casamento uma felicidade perfeita é pedir demais. Mesmo o casamento, que dentre todas as coisas humanas é a que promete mais felicidade e é capaz de dá-la, conseguirá satisfazer seu desejo [do ilimitado]*. Quem tiver presente esta realidade, procurará a felicidade no casamento, mas não esperará uma felicidade perfeita, pois sabe que seria pedir-lhe o que ele não pode dar. [É como que]* quando se põe demasiada pressão numa caldeira, esta acaba por explodir; quando se exige demais do casamento, este entra em colapso. Muitos divórcios de hoje encontram aqui a sua explicação.

  • 2) Tende também a inverter a ordem de prioridades quanto aos fins do casamento, ou seja, pensa que o casamento existe em primeiro lugar para exprimir o amor e desfrutar dele, e só em segundo lugar (quando muito) para ter filhos.

A segunda razão pela qual o casamento muitas vezes não dá certo hoje em dia é a tendência do homem moderno de criar uma nova ordem de prioridades quanto aos fins do casamento, convertendo o amor mútuo no principal objetivo ou mesmo no objetivo total e único do casamento. Ao mesmo tempo, reduz-se a possibilidade de ter filhos – um ou dois filhos – a uma simples circunstância; a maioria dos casais quererá tê-los como parte da sua auto-realização, ao passo que outros, de modo igualmente legítimo, talvez prefiram um ou dois carros, uma ou duas casas…

Para muitas pessoas de hoje, os filhos desempenham no casamento o mesmo papel que os assessórios num automóvel: são “opcionais”. Inclua-os, se você gosta deles ou pode arcar com o gasto. Caso contrário, o casamento – como o automóvel – “funcionará” perfeitamente sem eles. A exclusão deliberada dos filhos, porém, quer seja total, quer parcial, leva necessariamente qualquer casamento a “funcionar” muito mal.

  • 3) Tente ainda a encontrar oposição entre esses dois fins, em lugar de vê-los como complementares.

Sem dúvida, o principal motivo que leva a maioria das pessoas a casar-se é o amor: “Por que quero casar-me com essa pessoa e não com outra? Porque a amo”. Isto é evidente. Normalmente ter filhos, conta, quando muito, como motivo secundário, e hoje em dia, e em muitos casos, nem sequer chega a apresentar-se como motivo.

Não é errado casar-se por amor, como não o é esperar felicidade do casamento. Mas as pessoas podem enganar-se se fizerem depender todas as suas esperanças de felicidade no casamento de um único fato – o amor mútuo –, quando a própria natureza determinou que a felicidade no casamento proviesse da delicada e exigente interação de dois fatores: amor e filhos. Em outras palavras, as pessoas podem enganar-se ou fracassar por não terem compreendido como o casamento deve “funcionar”, por não terem entendido o mecanismo pelo qual ele realiza todas as suas possibilidades, entre elas a de trazer [filhos e]* felicidade.

Afinal de contas, uma coisa são os motivos para casar-se, e outra bem diferente é o modo como o casamento traz felicidade. [Por que] o amor no casamento não está destinado a permanecer como amor entre duas pessoas. Provavelmente nem sequer sobreviverá, se não passar esse estágio. A sua vocação natural é expandir-se, estender-se, incluir cada vez mais elementos. O amor conjugal está na verdade projetado para se tornar amor familiar; está destinado a crescer e, nesse crescimento, a incluir e acolher outros seres humanos, que serão precisamente o fruto desse amor.

Fonte: Extraído e adaptado do livro: Amor e Casamento de Cormac Burke, sacerdote, doutor e professor de Teologia Moral.  Sobre o livro: Editora Quadrante, São Paulo, 1991.
* Grifo nosso.

 

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